terça-feira, 21 de abril de 2020


Quando vejo falar de esquerda e direita, de desigualdade e igualitarismo, indiferença as diferenças e tolerância e intolerância, me vem novamente a reflexão que a esquerda deveria pensar um pouco mais (no sentido de que o pensamento age quando pensa) sobre a afirmação de Warren Buffet, um dos homens mais rico do mundo. “É verdade que há uma guerra de classes, mas é a minha classe (burguesa) que está fazendo a guerra e ganhando”.  Tal contexto deixa clara a urgência da esquerda em colocar novamente suas lutas sob a bandeira da igualdade radical e da universalidade de direitos.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Solicitação de instalação de Hospital de Campanha para combate à Covid-19 na região do Baixo Tocantins/PA.

Cametá, 02 de abril de 2020

A Sua Excelência
Senhor HELDER ZAHLUTH BARBALHO
Governador do Estado do Pará
gabinetedogovernador@palacio.pa.gov.br;
para.governo@gmail.com;
Palácio dos Despachos “Benedicto Wilfredo Monteiro”, Av. Doutor Freitas, 2.531
Marco - 66087-812, Belém - PA
(91) 3216-8829 / 3342-5663
  
C/C Ex. Sr. ALBERTO BELTRAME
Secretário de Estado de Saúde Pública

Ref.: Solicitação de instalação de Hospital de Campanha para combate à Covid-19 na região do Baixo Tocantins/PA.


Excelentíssimo Governador do Pará,

 Nós, ribeirinhos, pescadores, agricultoras familiares, quilombolas, estudantes, professores, servidores públicos, vereadores, organizações sindicais, sociais e populares dos seis municípios da região do Baixo Tocantins (Cametá, Limoeiro do Ajuru, Oeiras do Pará, Baião, Igarapé Miri e Mocajuba), vimos pelo presente inicialmente externar a vossa excelência a preocupante situação quanto à infraestrutura do sistema de saúde ao combate à Covid-19 de nossa região.  
Considerando que o novo coronavírus e seu avanço no mundo ainda está no começo e que, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde no Brasil (OPAS/Brasil), com dados de 29 de março de 2020, “Foram confirmados no mundo 634.835 casos de COVID-19 (63.159 novos em relação ao dia anterior) e 29.957 mortes (3.464 novas em relação ao dia anterior) até 29 de março de 2020”[1]. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, já existem 4.256 casos confirmados, com 136 óbitos e apenas 06 pessoas recuperadas portanto já há “[...] transmissão comunitária da COVID-19 em todo o território nacional”[2].
No Pará, segundo dados da SESPA, obtidos em 30 de março de 2020, são 21 casos confirmados e 104 em análise; até o momento não há óbitos pelo novo coronavírus, mas, estima-se que possam morrer 35.460 pessoas pela COVID-19[3].
A pandemia de COVID-19, doença que ataca com rapidez os pulmões, prejudicando o sistema respiratório, e que pode causar a morte, é uma realidade mundial. Do ponto de vista epidemiológico, a melhor forma de diminuir os números de casos e, consequentemente, de mortes, é pelo distanciamento social, sendo o ISOLAMENTO SOCIAL HORIZONTAL (que significa todos e todos/as isolados/as e não somente pessoas de grupo de risco) ainda é a melhor forma de se evitar milhares de mortes e o colapso do sistema de saúde, devendo-se também continuarmos com os cuidados de higiene de mãos, objetos e ambientes.
Estamos nos mobilizando em rede, unidos e empenhados na campanha, “CONTINUEM EM CASA”, principalmente considerando que o número de casos pode dobrar a cada 3 dias em média e o número de mortes pode ser em cerca de 4% dos infectados, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2020), além do que 15% das pessoas podem adoecer de forma grave, sendo necessário Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para sobrevivência.
Em nossa Região do Baixo Tocantins, constituída por muitas ilhas, vilas, distritos, setor de estradas, rios, igarapés, furos, comunidades ribeirinhas, extrativistas, quilombolas, com povos tradicionais desta Amazônia vivendo em Cametá, Mocajuba, Oeiras do Pará, Limoeiro do Ajuru, Baião e Igarapé-Miri, com uma população total de mais de 340.600 habitantes (dados populacionais oriundos do site IBGE, 2019), não há UTIs nos hospitais dessa região e o número de respiradores artificiais não chega a 30, até o momento, de maneira que é preciso continuar evitando o avanço da epidemia, para que o sistema público de saúde tenha condições de responder aos casos do novo coronavírus que forem ocorrendo na região.
Em seguida, diante do quadro exposto acima, vimos, veementemente, solicitar em caráter de urgência a instalação de um Hospital de Campanha para combate dos casos mais graves da Covid-19 na Região do Baixo Tocantins/PA com o objetivo de salvar vidas, pois É PRECISO CUIDAR DA VIDA, abarcando, de imediato, os seis municípios em questão, mas também outros em adjacência, a exemplo dos que estão por serem instalados em Belém, Marabá, Breves e Santarém, principalmente quando se considera a geografia da região, assim como o fato de que a maioria da população vive em territórios rurais, não sendo nada fácil se deslocar para Belém, caso haja necessidade. Essa é a função de um Estado. E a vida deve ser preservada acima de tudo, envolvendo todos e todas. 
Na certeza de sermos atendidos em nosso pleito, dado o empenho que Vossa Excelência vem tendo junto ao combate ao Coronavírus no Estado, subscrevemo-nos.
Atenciosamente,


Carmen Helena - Secretária Geral da CUT/Brasil
Euci Ana da Costa – Presidente da CUT/PA
Dom José Altervir da Silva - Bispo da Diocese de Cametá
Doriedson Rodrigues - Coord. do Campus de Cametá/UFPA
Benedita Carvalho Gonçalves – Regional Tocantina da FETAGRI/PA (autorizado)

SINTEPP – Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação Pública do Pará

SINDSAÚDE/PA (autorizado)

União Nacional dos Estudantes/Diretora de Políticas Públicas p/Juventude (autorizado)

ADUFPA/Cametá (autorizado)

Levante Popular da Juventude (autorizado)

Coletivo Para Todos (autorizado)

CPP - Conselho Pastoral dos Pescadores (autorizado)

Associação Ribeirinha de Cametá – ARC (autorizado)

MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens (autorizado)

Cooperativa Auto gestora de empreendimentos de Cametá – COOPACC (autorizado)

Colônia de pescadores Z-16

Associação dos Pescadores Artesanais do município de Cametá – APAMUC (autorizado)

Associações de quilombolas de....oeiras/Baiao

Associações de Mulheres de Igarapé-Miri (autorizado)      



[1]Fonte:https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:covid19&Itemid=875. Acesso em 30 de março de 2020.
[2]Fonte:https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:covid19&Itemid=875. Acesso em 30 de março de 2020. 
[3]Segundo o Potential Impact of COVID-19 on Human Mortality tool – PICHM,2020

terça-feira, 21 de março de 2017



ANÁLISE DE CONJUNTURA MUNICIPAL: “velhos” e “novos” atores políticos mirienses pós 2016.
Edson Antunes[1]
Tom Jobim e Elis Regina cantaram “são as águas de março fechando o verão é a promessa de vida no teu coração”. Mesmo que para muitos o ano começa quando o carnaval acaba e que todo governo precisa de um tempo mínimo para se organizar, como dizia Cazuza “o tempo não para”, a cidade não para, seja o governo[2] estratégico de médio e longo prazo, seja o governo proposto pelos “teus filhos saberão cuidar de ti” ou o governo do dia-a-dia, a roda gira e ações públicas são ou não realizadas. Então, para não sairmos apontando o dedo indevidamente por ai, quando começam a aparecer os problemas, ou até mesmo quando se percebe vontade em começar a resolvê-los, é preciso inicialmente fazer uma boa análise de conjuntura[3] do atual momento sócio, político e econômico do município para melhor compreensão dos fatos da estrutura social miriense. 
Para tanto, apresentamos algumas questões que nos orientaram na condução desta análise, a saber: Qual a nova correlação de forças e interesses no tabuleiro político de Igarapé-Miri? Quais as alianças políticas presente no governo “teus filhos saberão cuidar de ti”? Qual a força política central deste governo? E o que de “velho”, “novo” ou “diferente” temos hoje na estrutura política municipal? Qual o quadro atual de atores[4] do poder executivo e legislativo para o mandato 2017-2020?
Como já analisamos em outros momentos, há uma constante circulação das elites[5] dentro da classe política miriense[6], em parte, pela manutenção do poder político edificado pelo poder econômico (como no caso do elemento estratégico engenho de cana-de-açúcar da família Leão); ou do volumoso “financiamento de terceiros” para as campanhas eleitorais ou devido aos fluxos na política de alianças quando da criação de blocos partidários, ligados a uma ou duas das três principais forças políticas do estado, hoje PSDB, PT e PMDB.
Este fenômeno pode ser observado, pela intensa costura entre as principais forças na formação da política de alianças de blocos partidários que disputaram as eleições municipais majoritárias dos últimos pleitos. Merecendo destaque, a disputa polarizada de 2012 da chapa de Pina (PT) e Francisco Pantoja (PMDB) candidatos à reeleição do bloco esquerda-centro entre a chapa de Pé de Boto (DEM) e Edir Corrêa (PSD) candidatos do bloco direita-centro, da qual saiu vitoriosa a chapa encabeçada por Pé de Boto-25, desembocando forte embate na justiça eleitoral com permanentes trocas de Prefeito[7] nunca visto na historiografia política de Igarapé-Miri, que culminou na realização de eleição suplementar.
A eleição suplementar de maio de 2015 foi um anuncio da formação das forças políticas que disputariam as eleições municipais de outubro de 2016. Neste pleito, saiu vitoriosa a chapa do ex-prefeito Pina (PT) e da vereadora Carmozinha[8] (PV) do bloco esquerda-centro obtendo 11.764 votos contra a chapa do vereador Toninho Peso Pesado[9] (PMDB) e Marcelo Corrêa (PR)[10] do bloco centro-direita que obteve 11.227, uma diferença de 557 votos, bem como da chapa de Joca Pantoja (PPS) e Antoniel Miranda (PEN) do bloco centro-direita mais próximo do governo do estado, que obteve 7.939 votos.
Com a vitória da chapa Pina e Carmozinha para comandar o poder executivo, o vereador Toninho Peso Pesado (vereador eleito para a presidência da câmara) volta ao comando do poder legislativo e dar continuidade a formação de suas alianças, construída nos 6 meses que assumiu a Prefeitura, tendo como base central o apoio da maioria dos vereadores da então câmara municipal. 
Após os constantes fluxos partidários quando da formação dos blocos para a disputa das eleições de 2016, as forças políticas foram novamente articuladas pelo PT, PPS e PMDB, ou seja, fecharam-se a chapa de Padre Jucelino e Antônio Marcos ambos do PT, a chapa de Joca Pantoja do PPS e Marcelo Corrêa agora PSC e a chapa que saiu vitoriosa de Toninho Peso Pesado do PMDB e Antoniel Miranda do PEN, coalização “suprapartidária” de centro-direita oposição acirrada ao PT do então governo Pina e ao PPS de Joca Pantoja e partidos ligados ao governo do estado, inclusive do próprio PSDB.  
Dito isto, o que de novo ou diferente pós 2016, temos na conjuntura política miriense?  A primeira questão é que desde 1992, último ano do governo Danda (1989-1992) o PMDB não elegia prefeito em Igarapé-Miri, num contexto de fortalecendo da sigla após o bom desempenho de Helder Barbalho na última eleição ao governo do estado e da chegada do presidente ilegítimo Michel Temer ao comando do governo federal; a segunda questão, um tanto diferente de nossa história política, é a formação da coalização “suprapartidária” constituída por um grande volume de forças políticas distintas (com forte presença de lideranças políticas oriundas da Vila Maiauatá) no comando do poder executivo e legislativo do município.
De fato, o atual quadro político neste conturbado início do governo “Teus filhos saberão cuidar de ti” merece nossa reflexão, em especial pela imediata centralidade da atual gestão. O centro do governo foi formado por membros do clã familiar do prefeito ou ligado pessoalmente a este ou ao PMDB (secretarias/órgãos: governo, finanças, educação, assistência social, cultura, controladoria, procuradoria...) deixando várias forças políticas da coalização na periferia.   
Para além do centro do governo, destaca-se a secretaria de saúde que ficou com o vice-prefeito Antoniel Miranda que também puxou o meio ambiente para o PEN, sendo que as outras secretarias, embora condutoras de políticas importantes como a administração (Dalva Amorin do PTB), gestão e planejamento (Francisco Pantoja do PMN), desenvolvimento urbano (Marenilson do PMN) e desenvolvimento econômico (Natan do PCdoB) não têm fundos descentralizados, sendo as despesas ordenadas pelo prefeito municipal e o secretário de finanças, ambos do núcleo central do governo, que no mínimo tem gerado descontentamentos nas demais forças políticas da coalização “suprapartidária” que venceu as eleições.   
Os descontentamentos entre as forças políticas do governo não são ainda mais intensos, porque o poder legislativo é comandado hoje por um grupo político que ora se colocou a favor ora contra aos governos do PFL, PT, DEM ou do PMDB, seja quando na condução da secretaria de saúde ou da câmara municipal e, portanto sempre esteve e está muito bem aquinhoado no poder local.    
 Por fim, essas são as forças de nosso tabuleiro político hoje que como já observamos podem de uma hora pra outra, entrar ou sair de blocos partidários formados por interesses conjunturais.


[1] Doutor em Ciências Sociais/Sociologia/UFPA. Prof.º SEDUC/Enedina Sampaio Melo/Ig-Miri.
[2] A democracia competitiva premia os bons governos, ou seja, administrações capazes de executar políticas que aumentem o bem-estar médio da sociedade. Nesse sentido, o mercado eleitoral está aberto, pois a nova coalização centro-direita não conseguiu restabelecer as bases do crescimento e da superação da crise ético-política brasileira (Rafael Cortez, cientista político pela USP, 2016).
[3] Conjuntura é uma atualização da estrutura, como a estrutura se apresenta num dado momento. A conjuntura não tem autonomia absoluta em relação à estrutura, que continua sendo determinante para se entender a lógica dos acontecimentos políticos e econômicos. A margem de manobra dos atores, na esfera da conjuntura, é relativa, ou seja, ela é determinada pelas limitações da estrutura. Achar que essa margem é ilimitada e que os atores podem fazer o que quiser é incorrer numa espécie de voluntarismo e suas consequências práticas no campo social e político. Como atualização da estrutura, a conjuntura apresenta sempre algo novo, diferente. Isto porque a correlação de forças e interesses no tabuleiro político varia. Quando a política de alianças sofre uma mudança, a sociedade experimenta uma sensação de turbulência, de insegurança ou crise. As conjunturas são determinadas, em primeira instância, pelas alianças políticas em jogo (Michel Zaidan, cientista político da UFPE, 2016).
[4] Bourdieu utiliza o termo “agentes” pertencentes a determinado “campo”, neste caso campo político para analisar a estrutura geral da sociedade (BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 5ª edição. Rio de Janeiro: Bertrando Brasil, 2002).
[5] Conceito clássico da teoria política em MICHELS (1958); PARETO (1961); MOSCA (1988) e BOTTOMORE (1965).
[6] CORRÊA, Edson de Jesus Antunes. “Leões do Norte”. Elite política em Igarapé-Miri. UFPA, Belém, 2004.
[7] Essa questão será tratada em outro momento.
[8] Vereadora Carmozinha por ser a vice-presidente assumiu por 6 meses a presidência da câmara.
[9] Vereador Toninho Peso Pesado por ser o presidente da câmara assumiu por 6 meses a prefeitura.
[10] Contador do então Prefeito Toninho Peso Pesado nos 6 meses que esteve a frente da prefeitura.

sexta-feira, 3 de março de 2017

CARNAVAL DE RUA COMO OPORTUNIDADE DE EXERCÍCIO DO DIREITO ÀS CIDADES RIBEIRINHAS DO BAIXO TOCANTINS (PA)

CARNAVAL DE RUA COMO OPORTUNIDADE DE EXERCÍCIO DO DIREITO ÀS CIDADES RIBEIRINHAS DO BAIXO TOCANTINS (PA)
Edson Antunes
Em abril de 2016 a Revista Latino Americana de Estudos em Cultura (MATIZES) da UFF/RJ, lançou o dossiê “Múltiplos carnavais: Economia e política nas manifestações culturais populares”; coube a Marina Bay Frydberg fazer a apresentação intitulada: “Quando o carnaval chegar”: Carnavais em múltiplos e variados enfoques. No texto, Frydberg trás a historicidade do carnaval, constatando a existência de vários carnavais no Brasil: o carnaval das escolas de samba, o carnaval de rua, o carnaval dos trios elétricos. Para a autora, a tradição de se brincar o carna­val foi trazida para o Brasil pela manifestação popular de origem portu­guesa que consistia em atirar nas pessoas objetos que sujassem e molhassem. A partir da segunda metade do século XIX o carnaval pas­sa a ser festejada através das socie­dades carnavalescas, organização de pessoas de classe média e alta, que desfilavam fantasiadas, com carros e bandas de música. Inspirados pelas sociedades carnavalescas, as classes populares passaram a se organizar em blocos, cordões e ranchos. O carnaval passa então a ser classificado em “Grande Carna­val”, modo da elite brincar a festa, e “Pequeno Carnaval”, forma popular da brincadeira carnavalesca. Foi no final da década de 1920 que surgiram as primeiras escolas de samba, consideradas por muitos estu­diosos como uma síntese de todas es­sas outras formas de brincar o carna­val. Criou-se, assim, um modelo de carnaval que inspirou ma­nifestações festivas por todo o país e também pelo mundo. A festa carnavalesca brasileira, seja das escolas de samba ou do car­naval de rua, passou a fazer parte do calendário festivo do país ajudando na construção da identidade nacional, ganhando contornos regionais e locais em diferentes lugares do Brasil, sendo uma das caracte­rísticas do potencial do carnaval como elemento construtor de identidade e de práticas de sociabilidade.
O carnaval é sem dúvida uma festa de múltiplas expressões artísticas e, consequente­mente, de variados significados possí­veis de serem interpretados (o carnaval como prática, o carnaval como identidade, o carnaval e sua relação com o território.), assim, pode ser pensado como ritual, mas também como organização. Pode ser pensado como elemento constitu­tivo do ser, mas também como força política. Pode ser pensado como arte, mas também como negócio. Pode ser pensado como objeto de estudo, mas também como elemento constitutivo da identidade do pesquisador.
Na perspectiva de Siqueira & Vasque (2015), o carnaval também tem haver com o planejamento urbano e o direito a cidade, apresentando duas abordagens em disputa no modo de apropriação da rua, a saber, “a da urbanização social e do empreendedorismo urbano”. A primeira está associada à implementação de uma gramática de direitos que implica não só políticas redistributivas, mas também ações de reconhecimento no ambiente urbano ( identificação de áreas periféricas como parte da cidade), materializada por meio do que chamamos de direito à cidade. A segunda vem predominando na administração das grandes cidades, que vem sofrendo intenso processo de transformação socioterritorial, ou seja, o urbanismo social remete para a necessidade de administrar a cidade de modo a torná-la acessível aos seus residentes, isto é, permitindo-lhes acesso à terra, à infraestrutura urbana e reconhecendo-os (também) como pertencentes àquele espaço urbano. Já o planejamento – empreendedorista – por projeto facilita a mobilização de recursos em escala suficiente para programar grandes blocos de investimentos em equipamentos urbanos de elevado custo. Nesse sentido a manifestação cultural possui características próprias fundamentais que podem servir, no caso de uma gestão conduzida a partir de um empreendedorismo urbano, para atender aos interesses do capital privado na construção de uma cidade espetáculo, onde tudo está marcado pela circulação e consumo de novos produtos urbanos, ou se apropriada pelo urbanismo social, como forma de construção de uma ambiência diversificada e inclusiva a partir de uma perspectiva participativa voltada para seus próprios habitantes.
Ao se fazer uma rápida analise do carnaval pensado em sua relação com o território, o carnaval da região do Baixo Tocantins (PA) vem passando por grandes transformações. A cada ano, os municípios que compõe o território regional se destacam de alguma forma na história desta que é a maior expressão da cultura popular brasileira, (festa que mobiliza mil­hares de pessoas nas ruas, que popu­larmente é reconhecido que só depois dela que o ano começa, em que gira muito dinheiro e que mobiliza mani­festações apaixonadas); recentemente, para além do já consagrado ícone do carnaval popular paraense, o carnaval de Cametá (em especial o carnaval das águas), se não o melhor, mas um dos melhores carnavais do estado, a cidade de Abaetetuba vem se destacando pela participação de público e grandiosidade de seu carnaval. No entanto, a visão que vem avançando e tornando-se hegemônica na atualidade regional, bebe do modelo mercadológico dos “blocos de abadas”, do carnaval pensado como negócio que pode (com forte interferência externa apropriada integralmente pela lógica empreendedora capitalista), tirar a alegria e a espontaneidade dos “blocos de rua” de inspiração do modelo endógeno originários da cultura e historicidade local, eminentemente popular.
Nesse contexto, em que a necessidade de intervenção popular passa a ser percebida pelo poder público e reivindicada por seus citadinos, o conteúdo do direito à cidade passa a incluir acesso a direitos difusos e sociais, considerando que a festa carnavalesca é gratuita e de natureza democrática.
Dito isto, defendemos que o papel do poder público, muito mais de incentivar “cidades espetáculos” é de fortalecer, apoiar e capacitar às iniciativas de carnaval de rua (blocos de rua, “pequeno carnaval”) que comungam do ideário do carnaval e sua relação com o território e do urbanismo social, tais como as já exitosas experiências do “bloco da bandinha” e do bloco “cara e coroa” do município de Igarapé-Miri, blocos eminentemente populares, democráticos e de forte relação à visão citadas a cima; no sentido de difundir esse modelo e fazer surgir novas experiências nos bairros baseados no fundamento da organização social e sociabilidades, no qual os citadinos possam se envolver na construção de suas próprias fantasias, gerir de forma processual a produção da cidade, usando de suas criatividades, explorando toda a diversidade sociocultural e socioambiental do território em tela que possibilite uma nova economia do carnaval com geração de renda para a região.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Analise dos momentos de desenvolvimento de Igarapé-Miri (Tese de doutorado p.35-37 Belém:UFPA, 2016)

Ao se fazer uma análise dos principais momentos dos processos de desenvolvimento por que passou Igarapé-Miri, vale considerar que a história da formação socioeconômica do município não é muito diferente daqueles experimentados pelas sociedades amazônicas, marcados inicialmente pelos algozes do processo de colonização que impunham o exclusivo comercial da colônia brasileira a metrópole portuguesa. Acrescenta-se a isso a forte desigualdade regional que perpetuou a região como mera fornecedora de matéria prima.
O primeiro momento de desenvolvimento está intrínseco à origem histórica de Igarapé-Miri, pois é a partir da cedência de terras da coroa portuguesa para exploração madeireira a seus representantes no município, de uma área onde já havia colonos moradores que resistiram, mas não conseguiram conter a força do poder do império, que se deu a origem da municipalidade. Soma-se a notória influência religiosa e cultural portuguesa que constituiriam as bases de um município altamente elitista, escravista e opressor. Fato marcado pela abertura por negros escravos do canal que liga o rio Santana de Igarapé-Miri ao Rio Moju. Assim, as tentativas de resistência sempre foram abafadas pelas forças econômicas, políticas e sociais ligadas à coroa, pelo que poderia se oferecer de melhor da natureza “miriense”, com o objetivo de mandar a Portugal, em troca das cobiçadas manufaturas europeias da época para o desfrute das “elites econômicas[1]”.
Podemos identificar um segundo momento de desenvolvimento da sociedade miriense, que são os chamados regatões[2] e suas casas comerciais conectadas às casas aviadoras de Belém, forma singular amazônica do capital mercantil. Os proprietários dos regatões eram elites econômicas pertencentes às famílias detentoras de capital, cuja acumulação mercantil dava-se pela venda de manufaturas por altíssimo preço em troca de ervas, madeiras e demais produtos florestais, para venda às grandes casas aviadoras da capital Belém.
Em seguida e não excludente do anterior, temos o mais importante momento até hoje de desenvolvimento do município, pois foi no período áureo da economia de cana-de-açúcar que tivemos o ápice do desenvolvimento de Igarapé-Miri. Este período foi marcado por relações de compadrio, reciprocidade e exploração dos lavradores e seus familiares, o município chegou à façanha de posar nas estatísticas oficiais como o segundo maior PIB do estado, devido o tamanho da produção de aguardente de cana e açúcar mascavo, prova que nos anos de 1938 e 1939, a coletoria de Rendas Federais do município alcançou a renda máxima da região (LOBATO, 2007, p. 66).
Esse processo marcou profundamente as relações sociais, econômicas, políticas e culturais do povo miriense. A relação socioeconômica de aviamento[3] de mercadorias imposta pelas casas grandes dos engenhos aos lavradores e todo poderio simbólico do dono do engenho perante a localidade ou vila onde se instalava, reproduzia a mesma lógica do capital mercantil de acumulação por preços exorbitantes que endividavam cada vez mais os trabalhadores do engenho, cortadores e fornecedores de cana-de-açúcar e suas famílias. E ainda por uma dominação das relações sociais, nas quais a vida da comunidade com suas rezas, festas, amizades, parentescos, decisões, dores, amores, desejos e felicidades passavam de certa forma pela vontade do dono do engenho e de sua família da casa grande.
Após mais de 40 anos, do século XX, de vindoura economia açucareira, o município entra em declínio devido ao processo de industrialização nas regiões, sul sudeste centro-oeste do Brasil. Os donos de engenho cuja origem se mistura com o próprio capital mercantil e latifúndio agrário segue sua rota para a capital do estado, onde se estabelecem como os novos “empresários”, donos de supermercados, deixando o município sem nenhum horizonte de desenvolvimento e distribuição de renda.
Nas décadas seguintes com a redemocratização brasileira e todo o debate religioso em torno da teologia da libertação liderada pela Prelazia de Cametá bem como a forte influência do movimento de luta pela terra e movimento ambientalista, começou-se a dar novo direcionamento ao processo de desenvolvimento regional. A região “Tocantina” que como as outras regiões amazônicas foram ocupadas por grandes projetos como a UHE-Tucuruí e o projeto Albrás-Alunorte, buscou na organização social de seu povo nova alternativa ao desenvolvimento local.
Desse processo, surgiu o que se pode chamar de mais um momento de desenvolvimento do município, tendo como carro chefe o manejo florestal e plantio do açaí. A forte presença de organizações sociais no município consolidou experiências na área de manejo florestal e da produção de fruticultura da agricultura familiar, o que abriu novos parâmetros para o financiamento, assistência técnica, produção e exportação da produção miriense. Em síntese, esses são os momentos do processo de desenvolvimento presentes na historiografia do município.




[1] Bottomore (1965) sintetiza que o termo elite de modo geral é empregado de forma operacional referindo-se a grupos funcionais, sobretudo ocupacionais, que possuem status elevado (por uma razão qualquer) em uma determinada sociedade. E ainda que de modo mais restrito compreende-se como grupos sociais que exercem diretamente ou influenciam no poder político (BOTTOMORE, 1965, p.21).
[2] McGrath (1999) argumenta em seu artigo “Parceiros no Crime” o regatão e a resistência cabocla na Amazônia Tradicional que: [...] O regatão é um comerciante ambulante que viaja entre centros regionais e comunidades rio acima, comercializando mercadorias para pequenos produtores caboclos e comerciantes do interior em troca de “produtos regionais”, agrícolas e extrativistas. O regatão tem uma história longa e controvertida na Amazônia: de um lado, é visto como um pioneiro heroico, trazendo a civilização para produtores isolados na floresta (GOULART, 1968); de outro, como um atravessador sem escrúpulos, explorando os pobres da zona rural e roubando comerciantes locais em seis negócios (PENA, 1973). Mas, apesar das diferenças de opinião, ninguém tem duvida da importância do regatão para a sociedade amazônica. Junto com o caboclo e seu patrão, ele formava a base do sistema de aviamento e o nexo da luta para controlar o excedente que o sistema produzia. Jogando nos dois lados da luta entre caboclo e patrão, o regatão tem sido uma força decisiva em vários períodos da história econômica e social da Amazônia, ajudando a construir, manter e, mais tarde, desmantelar o sistema mercantil que dominou a região até meados do século vinte (MCGRATH, 1999, p. 57).
[3] Segundo McGrath (1999) embora diferindo superficialmente das outras economias regionais da América Latina, o sistema de aviamento, o sistema tradicional da Amazônia, compartilha quase todas as principais características associadas ao capitalismo mercantil [...] aviar significa fornecer mercadoria a prazo com o entendimento que o pagamento será feito em produtos extrativos dentro do prazo especificado. O fornecedor da mercadoria é o aviador, a pessoa que está recebendo a mercadoria é o aviado. Como é implícito nessas relações, existem dos componentes no sistema de aviamento: de um lado, o sistema comercial, com transações baseadas principalmente no escambo e crédito, raramente envolvendo dinheiro em moeda; do outro, a rede comercial, baseada nesse tipo de relação, com produtores individuais ligados a casas aviadoras específicas através de uma rede de intermediários (MCGRATH, 1999, p. 58-59).

sábado, 9 de abril de 2016

“Tudo que é sólido se desmancha no ar..”
Karl Marx & Friedrich Engels

A Amazônia vive um intenso processo de globalização de sua economia e sociedade, globalizam-se os mercados, integram-se as economias e as culturas, e por outro lado amplia-se a as desigualdades sociais. Tanto nas sociedades que vivenciam o capitalismo central como nas do capitalismo tardio, mudaram velozmente seus modos de vida a partir da década de 90, impulsionado pelas transformações profundas no desenvolvimento econômico mundial ocorrido pela reestruturação produtiva, pela inovação tecnológica e principalmente pelo avanço da mundialização da economia capitalista, através da aceleração da globalização. (COSTA, 2005; ANTUNES, 2009; SANTOS, 2010). A desigualdade social e concentração de renda observada têm seu resultado mais evidente sobre as sociedades locais, principalmente quando é verificada a desestruturação familiar e crise de identidade em todo o mundo, em especial aos segmentos sociais mais vulneráveis que sofrem consequências imediatas desse processo de constantes mudanças.
Nesse sentido, é importante a priori conhecer de forma profunda um dos segmentos sociais que mais se destacam nas conexões da teia de nossa aldeia global enquanto sujeitos que vivem intensamente os “jogos” de construção de identidades na chamada pós-modernidade deste conturbado inicio de século XXI.
Para Vitulus (2009) é preciso reconhecer que não existe apenas uma juventude e que, ao conhecê-la mais profundamente, se encontrará muitas especificidades em sua composição, como a divisão de classe, etnia, gênero, juventude rural ou urbana, dentre outras. Pois se deve abordar sua especificidade e singularidade, sem negar a complexidade da mesma, como fenômeno multidimensional, e a existência dos diversos fatores que definem a identidade juvenil.
Autores como (DAYRELL, 2007; SPOSITO 2007; VITULUS, 2009; LEÃO et al 2011) entre outros,  tratam da questão da identidade e condição juvenil no Brasil como forma de compreender melhor esse sujeito em transição e projetar ações que contribuam para o seu desempenho em suas variadas formas de sociabilidade na sociedade envolvente. Um marco importante nesse debate foi a publicação do Documento de Conclusão do Projeto Juventude, pesquisa realizada pelo Instituto Cidadania no ano de 2004, sobre a singularidade da condição juvenil que é sintetizada da seguinte forma:

A condição juvenil é dada pelo fato de os indivíduos estarem vivendo um período específico do ciclo de vida, num determinado momento histórico e cenário cultural. No contexto atual, juventude é, idealmente, o tempo em que se completa a formação física, intelectual, psíquica, social e cultural, processando-se a passagem da condição de dependência para a de autonomia em relação à família de origem. A pessoa torna-se capaz de produzir (trabalhar), reproduzir (ter filhos e criá-los), manter-se e prover a outros, participar plenamente da vida social, com todos os direitos e responsabilidades. Portanto, trata-se de uma fase marcada centralmente por processos de definição e de inserção social. [...] A condição juvenil não pode mais ser compreendida como apenas uma fase de preparação para a vida adulta, embora envolva processos fundamentais de formação. Ela corresponde a uma etapa de profundas definições de identidade na esfera pessoal e social, o que exige experimentação intensa em diferentes esferas da vida (INSTITUTO CIDADANIA, 2004:10).

Assim, inspirados em Sposito (2007) trazemos a baila duas questões que nos parece central ao analisarmos a construção do sujeito social “juventudes”: a questão da identidade e a questão da condição da sociabilidade na modernidade.
O tema da identidade aparece, assim, como importante, porque esta fase, ao ser caracterizada como de transição, pois nela se gesta um vir-a-ser, é, ao mesmo tempo, uma construção do presente, enquanto superação da infância, e em saída da infância. A busca da idade adulta remete para o jovem, quer individualmente ou em grupo, a questão do auto-reconhecimento e de ser reconhecido. [...] Nesta tentativa de melhor entender o que se passa no interior da escola, enquanto espaço de sociabilidade e de práticas culturais, o tema da juventude afigura-se como importante. Com o aluno e, muitas vezes, com o trabalhador que hoje frequenta a escola pública, convivem a condição sexual – homens ou mulheres – a cor, e o jovem, pois estas são múltiplas dimensões de um mesmo ser social, que precisam ser analisadas. Reter, para fins de produção de conhecimento e de intervenção na escola, esta última referência – ser jovem – traduz, simultaneamente, um desafio e um caminho importante a ser trilhado (SPOSITO, 2007:98-99).
Da mesma forma, ganha, novos contornos a importância da sociabilidade gestada nas ruas dos bairros da cidade, para a conformação da identidade juvenil. Neste caso, a rua aparece como espaço de formação dos grupos de amizade que podem se desdobrar nas galeras, nas gangues, nos grupos de música e dança, como aqueles que se dedicam ao rock, ao RAP, entre outros. Muitas vezes, a violência tece, também, essa sociabilidade, quer pelo contato com o mundo do tráfico e das drogas, ou pela formação de grupos de natureza racista. Quanto maior a ausência do Estado, na oferta de equipamentos destinados à cultura e ao lazer juvenis, mais a rua adquire relevância em suas dimensões socializadoras [...] Por essas razões, as práticas que ocorrem fora da instituição escolar devem chamar a atenção dos educadores, não para trazer a rua para o interior da escola, esvaziando a especificidade dos processos que ocorrem no seu âmbito. Mas é preciso reconhecer, compreender esse universo se, de algum modo, quisermos transformar a ação educativa da escola, quanto mais não seja pelo melhor conhecimento dos sujeitos aos quais se destinam os esforços dos educadores (SPOSITO, 2007:101).
Nesse sentido, nos são apresentadas por Leão et al (2011) algumas dimensões da condição juvenil que devem ser levadas em consideração na busca deste entendimento, tais como: origem social, marcada pela pobreza, precarização do trabalho, culturas juvenis no qual os jovens buscam demarcar sua identidade e a sociabilidade, apontando a centralidade dessa dimensão que se desenvolve entre os grupos de pares, preferencialmente nos espaços e tempos do lazer e da diversão, mas também presente nos espaços institucionais como na escola ou mesmo no trabalho [...]  Essas diferentes dimensões da condição juvenil se configuram a partir do espaço onde são construídas, que passa a ter sentidos próprios, transformando-se em lugar, o espaço do fluir da vida, do vivido, sendo o suporte e a mediação das relações sociais [...]   É através dessas dimensões, entre outras, que os jovens vão se construindo como tais, com uma identidade marcada pela diversidade nas suas condições sociais, culturais (etnias, identidades religiosas, valores etc.), de gênero e até mesmo geográficas, entre outros aspectos. A juventude se constitui como um momento delicado de escolhas, de definições, no qual o jovem tende a se defrontar com perguntas como: “Para onde vou?”, “Qual rumo devo dar à minha vida?”, questões estas cruciais para o jovem e diante das quais a escola teria de contribuir de alguma forma, no mínimo na sua problematização (DAYRELL, 2007:1107; LEÃO et al, 2011:255-257).

Uma primeira constatação é a existência de uma nova condição juvenil no Brasil, o jovem que chega às escolas públicas, na sua diversidade, apresenta características, práticas sociais e um universo simbólico muito diferente das gerações anteriores. Mas quem é ele? Quais as dimensões constitutivas dessa condição juvenil? De onde eles vêm, quais suas perspectivas? São estas questões que nos inquietam a buscar compreender nesta empreitada.

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